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Devorar algo que não é meu, e assim me transformar

Da entrevista com o poeta e tradutor brasileiro Guilherme Gontijo Flores, publicada na 14ª edição da alba, junho de 2023. Tradução de Laura Haber. Ilustração de Andrés Muñoz Claros.




alba: Seu trabalho como tradutor é amplo e heterogêneo. Você traduziu textos de línguas clássicas, línguas modernas europeias e inclusive de línguas indígenas brasileiras. Essa inclinação a correr riscos em línguas tão diferentes, sempre te acompanhou desde o início de seu trabalho como tradutor? O que te leva a se aventurar neste cipoal babélico?


GGF: Em primeiro lugar, a falta de vergonha na cara; ou pelo menos a falta de medo do fracasso, uma coisa que apavora muita gente. Sobre isso eu nem consigo argumentar muito, mas acho que aprendi vendo tradutores que eu admiro enfrentando línguas que eles conheciam mal ou nada, como Haroldo de Campos, José Paulo Paes, ou mesmo Antônio Feliciano de Castilho no século XIX. Em segundo lugar, está uma crença, derivada desses mesmos autores, de que, sobretudo para traduzir poesia, o conhecimento linguístico do texto original pode ser obtido por meios diversos (consultas de traduções anteriores, comentários filológicos, consultas a especialistas, dicionários, léxicos, análises críticas, laboratórios de tradução etc.); mas que, para dar conta mesmo do desafio poético, o ideal é ter alguém poeticamente devoto no jogo. Em outras palavras, em muitas traduções, é mais importante ter um domínio da própria língua do que da língua do outro; desde que isso seja feito com um mínimo de rigor, seriedade e respeito.

Com a sua pergunta, eu acho que posso dizer que sim, isso sempre me acompanhou desde o início. O primeiro momento de que me recordo, em que pensei no desafio da tradução, foi ao ler uma edição bilíngue da prosa poética de Rimbaud, com tradução de Ivo Barroso, quando eu tinha uns dezesseis ou dezessete anos. Eu não sabia absolutamente nada de francês à época; mas o simples fato de estar bilíngue me fazia pensar em soluções tentativescas, que eu sondava com a minha mãe, que conhecia bem a língua. Era lá uma língua europeia com imensa tradição literária, um autor canônico como Rimbaud; mas eu o enfrentava nessa mistura de confusão babélica e anseio de pesquisa, com projetos de solução tradutória. O resultado disso tudo é que fui estudar francês no semestre seguinte. E também quando eu estava no começo da Licenciatura em Português da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), fazendo a disciplina de Latim II, o professor Raimundo Carvalho trouxe como exercício a tradução do poema 5 de Catulo. Eu, de modo completamente instintivo e irracional, decidi naquele momento que o único modo de traduzir um poema seria poeticamente. Eu conhecia muito mal o latim, quase nada da poesia romana, e me bati ali para tentar algum resultado decente. Resultado: fui procurar o Raimundo Carvalho e pedir para ele ser meu mestre na arte da língua latina e da tradução poética; tinha decidido ser tradutor de latim, e precisava aprender pra valer.

Contando essas duas histórias, eu percebo retroativamente que sempre fui atrás de traduzir o que eu não sabia, um pouco ao modo daquele axioma antropófago de Oswald de Andrade: "Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago." Mas mesmo essa frase eu só viria a conhecer com alguma intimidade um ano ou dois mais tarde. É o fato de ser um cipoal babélico, como você diz, onde me perco e preciso me esforçar para não sucumbir, que me move, no fim das contas. A tradução, na minha trajetória, sempre foi muito mais uma porta para aprendizados, um gatilho para investigar o desconhecido, ou devorar algo que definitivamente não é meu, e assim me transformar.



alba: Em 2019 você publicou um texto sobre a tradução de cantos xamânicos da língua Marubo. Nele você procura explorar as possibilidades de tradução de poéticas xamânicas ameríndias. Como você chegou a estes textos e quais desafios eles apresentam à tradução?


GGF: Eu tenho me dedicado à tradução de poéticas orais e, mais precisamente, vocais, pelo menos desde 2012, quando estava na metade do meu Doutorado em Letras Clássicas, na Universidade de São Paulo (USP), e tive a oportunidade de ver o helenista Philippe Brunet e sua então companheira Fantine Cavé-Radet performarem em grego e latim uma série de poemas antigos. Naquele momento eu percebi que uma série de discussões métricas que eu vinha fazendo eram perda de tempo; melhor seria mergulhar de vez na voz como instrumento poético. Claro que isso vinha de um interesse pela canção, pelas salmodias, por poéticas não-ocidentais etc.; mas dali em diante eu sistematizei o que era um interesse pessoal e difuso num projeto amplo de compreender melhor (principalmente a partir de ideias tiradas da obra de Paul Zumthor) as poéticas vocais do passado a partir de experimentos com as poéticas vocais do presente.

Então, ao mesmo tempo em que eu propunha soluções vocais contemporâneas em português brasileiro para analisar e recriar tradutoriamente os metros e poéticas do mundo grego e romano, mais especificamente das Odes de Horácio, eu também passei a experimentar (e experimento é palavra-chave nesta questão) traduções do cancioneiro moderno (do francês, inglês, italiano, russo etc.), da tradição erudita do canto (árias italianas, Lieder alemãs, cantos medievais etc.) e das poéticas tradicionais (cantigas anônimas e de datação discutível, cantos xamânicos indígenas, ritos do candomblé etc.), sem dar qualquer hierarquia a esses tipos de poéticas. Um dos resultados disso foi o livro Algo infiel: corpo performance tradução, um ensaio em forma de constelação, que escrevi em parceria com o colega e amigo Rodrigo Tadeu Gonçalves. Claro que a maioria desses trabalhos tem ficado num campo informal, em que faço para me apresentar fora do espectro acadêmico, mas parte dele também entra na minha poesia.

O trabalho com a língua marubo é um desses que ganhou caminho formal, por assim dizer. Eu estava num evento sobre tradução em Belém, creio que em 2016, quando encontrei pessoalmente o Pedro Cesarino. Eu já tinha lido e admirado imensamente o seu livro Oniska: poética do xamanismo na Amazônia, de 2011. Como tivemos uma afinidade meio que imediata, depois de algumas conversas, perguntei se ele não aceitaria me passar alguns dos cantos xamânicos que ele mesmo tinha traduzido, acompanhados de comentários e das gravações originais, para eu tentar fazer uma tradução vocal que incorporasse o ritmo desses cantos de espíritos. Cesarino achou a ideia interessantíssima, porém ficou preocupado com a parte ética do trabalho, com o que os Marubo poderiam achar de uma intervenção do tipo. Depois de pensar por um tempo, ele topou me passar dois cantos feitos pelo seu duplo, por entender que ali ele tinha uma certa familiaridade maior.

Esses cantos apresentam tantos desafios, que nem sei bem por onde começar. Em primeiro lugar, eles não têm nenhum contexto próximo do que poderíamos chamar de sistema literário. São poemas num sentido muito amplo, por aproximação de algumas práticas nas artes verbais; mas não têm quase nada a ver com o poema que encontramos num livro de poesia típico. Quando escutamos as gravações, o começo e o fim dos cantos são borrados; eles estão misturados a outros cantos, com outros espíritos falando, que paradoxalmente mantêm uma série de traços em comum no aspecto rítmico e melódico. Outro aspecto é que eles não são repetidos: são acontecimentos únicos, em que um espírito se manifesta no corpo do xamã por meio do canto; só que, ao mesmo tempo, guardam aspectos formulaicos, como versos inteiros repetidos de outros cantos, uso de um léxico xamânico com sentidos específicos, presença de sons assêmicos repetidos etc. O desafio todo desse artigo era pensar mesmo o que acontece quando tentamos deslocar os cantos ameríndios do seu contexto. É um desafio estético, mas sobretudo ético e político. Entendo que não tentar fazer isso é silenciar essas artes e ofícios da matéria e do sagrado; porém fazer isso de qualquer modo pode ser uma grande ofensa aos contextos em que poéticas outras são produzidas. Tanto é que, depois de traduzir, só me senti à vontade para cantar essas duas peças em dois momentos até hoje. E nos dois momentos em que me dispus a entoá-las, senti uma alteração psíquica e somática violenta, da qual só consegui retornar uma ou duas horas depois. É um cipoal que envolve mais que línguas; e só pude realizar porque tive ajuda contínua do Cesarino em todos os passos, apesar de assumir os riscos e os erros só para mim.



Guilherme Gontijo Flores (Brasil, 1984) é poeta, tradutor e professor de latim na Universidade Federal do Paraná. Publicou vários volumes de poesia, incluindo brasa enganosa (2013), Naharia (Kotter, 2017), carvão: capim (Editora 34, 2018) e Todos os nomes que talvez tivéssemos (Kotter/Patuá, 2020), bem como o romance História de Joia (Todavia, 2019). Como tradutor, publicou: A Anatomia da Melancolia de Robert Burton (2013, vencedor dos prêmios APCA e Jabuti de tradução), Fragmentos completos de Safo (2017, vencedor do prêmio APCA de tradução). Nos últimos anos, ele tem trabalhado na tradução e interpretação de poesia antiga.


 

A entrevista completa foi impressa em alemão na edição 14 da revista alba e pode ser encomendada em nossa loja virtual. Para obter uma versão on-line, ou comprar a revista você pode solicitar uma assinatura clicando em "ler mais".


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